Projeto de Texto Dissertativo Parte 2: Quatro Passos Neste post (um pouco longo, é verdade), vamos ver os quatro passos necessários para elaborar o projeto de texto dissertativo. É importante lembrar que o método explicado aqui não é o único existente, mas é uma possibilidade que funciona bem e não é tão difícil de entender. Se você preferir, pode modificar o método e deixá-lo mais adequado ao seu estilo de escrita. Mas não deixe de fazer um projeto de texto, porque ele aumenta muito a qualidade final da redação. Uma sugestão: se não tiver tempo ou ânimo neste momento, não precisa ler o post inteiro. Leia um passo de cada vez, de preferência tentando fazer um projeto de texto ao mesmo tempo. Dessa forma, você saberá muito mais claramente se entendeu o processo. Projeto de texto não é o mesmo que rascunho: enquanto o rascunho tem um formato igual ao da redação final (ou seja, pode ser entregue a um corretor), o projeto só precisa ser compreendido pelo próprio autor. Pode ser escrito em tópicos, com abreviações e outros elementos que serão eliminados da versão final. E, o mais importante, sua ordem costuma ser inversa em relação ao texto definitivo. Passo 1: Elaborar a tese Se a tese é o que definirá todo o texto (pois os argumentos serão elaborados para prová-la), ela deve ser o primeiro elemento a ser definido. Digamos que sua tarefa seja a seguinte: Com base na leitura dos textos motivadores seguintes e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema VIVER EM REDE NO SÉCULO XXI: OS LIMITES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO, apresentando proposta de conscientização social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. É importante ler com atenção a proposta toda, não apenas o trecho em negrito. No caso do tema do ENEM, por exemplo, é necessário não apenas opinar sobre a vida em rede no século XXI, mas também apresentar “proposta de conscientização social que respeite os direitos humanos”. A tese que vamos elaborar será propositiva, portanto (em outro post, vou falar com mais calma sobre os vários tipos de tese). Vamos também tentar usar as palavras-chave do tema na tese (rede, século XXI, público e privado), porque isso aumenta a probabilidade de que a redação esteja adequada ao tema. Logo após a leitura da coletânea, que pode ser encontrada no link a seguir (http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2011/05_AMARELO_GAB.pdf), vamos definir uma opinião sobre esse assunto e escrevê-la em um espaço à parte da folha de redação. É importante notar que uma tese não é obrigatoriamente uma opinião “a favor de algo” ou “contra algo”; por exemplo, se o tema é “pena de morte no Brasil”, parece óbvio para a maioria das pessoas que a tese será a pena de morte deve ser adotada ou a pena de morte não deve existir. Porém, alguém poderia defender a tese de que adotar ou não a pena de morte não fará diferença. Essa tese pode funcionar tanto quanto as outras, desde que o autor ofereça argumentos para defendê-la durante o texto. Vamos começar a elaborar a tese com uma ideia simples, pertencente ao senso comum e claramente exposta na coletânea: As redes sociais são parte integrante da vida no século XXI Se ficarmos com essa tese, agora a tarefa será provar que ela é verdadeira. Não é tão difícil, porque a própria coletânea oferece argumentos que justificam essa opinião (como o fato de 72% das pessoas pretenderem criar um perfil na rede, ou a afirmação de que não fazer parte de uma rede social hoje é como não ter telefone). Mas vamos tornar a tese um pouco mais complexa e, ao mesmo tempo, acrescentar a ela uma proposta de conscientização social. O modelo é o seguinte: Como as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI, é necessário... Agora vamos pensar no que deve ser feito (se for para o ENEM, respeitando os direitos humanos, o que quer que isso signifique; minha sugestão é simplesmente evitar propostas muito polêmicas). A coletânea fala que a ONU reconheceu o direito de acesso à rede como algo fundamental para o ser humano. Pode ser uma proposta (os governos deveriam garantir o acesso das populações à rede). Outra pode ser encontrada no final do segundo excerto da coletânea: as pessoas devem tomar cuidado com o que publicam na internet, para não prejudicar suas reputações. Nada impede que as duas estejam presentes na tese, mas vamos escolher uma só, para deixar o exemplo mais simples e fácil de seguir. Ao se elaborar uma proposta de intervenção, faz sentido pensar no seguinte: se a proposta for seguida, qual será a vantagem? Se não for seguida, qual será o prejuízo? Então, é possível mencionar a vantagem, o prejuízo ou ambos, como parte da tese ou como argumentos. No caso das redes sociais, vamos mencionar o possível prejuízo (a perda de privacidade) e a vantagem, que será a facilidade de comunicação. Como as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI, é necessário que as pessoas tenham cuidado ao usá-las, para poder aproveitar a comunicação mais ágil trazida por elas sem que haja perda de privacidade. Agora, vamos incluir as palavras-chave que ficaram faltando (público e privado) e, se necessário, reescrever a tese para deixar as orações mais legíveis: As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Note que a tese acima não é a única possível e alguém poderia argumentar que nem é a melhor; mas ela serve bem à função que tem neste texto: exemplificar o processo de elaboração de uma dissertação. Passo 2: Levantar Argumentos e Informações Como deve ter ficado claro no passo anterior, uma tese pode ser composta de mais de uma afirmação (e, vale lembrar, nem sempre essa afirmação é “a favor de” ou “contra” algo). Cada uma dessas afirmações deve ser provada durante o texto, com argumentos e informações. Na maioria dos grandes vestibulares, provas e concursos (como Unicamp, USP, Unesp e ENEM), há uma coletânea de textos que contém diversas ideias e pode servir como auxílio nessa etapa. Vimos no post anterior que os argumentos são justificativas para a tese, ou seja, ideias que ajudam a provar a veracidade da opinião do autor. No exemplo que estamos usando, temos que provar as seguintes afirmações: a) as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI; b) as redes sociais trazem vantagens, como a facilidade de comunicação; c) as redes sociais trazem riscos de perda de privacidade; d) é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado Portanto, vamos procurar argumentos e informações, na coletânea ou na vida real, que sustentem as afirmações feitas. Digamos que, após reler a coletânea e pensar um pouco, chegamos aos seguintes: a) as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI: 1) prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais; 2) 72% dos internautas pretendem ter um perfil em redes sociais; 3) o filme “A Rede Social” mostra a importância do Facebook no mundo de hoje. b) as redes sociais trazem vantagens, como a facilidade de comunicação: 1) é possível se comunicar com pessoas distantes; 2) é possível organizar mobilizações políticas; 3) as pessoas podem ficar menos alienadas, pois têm acesso a ideias que não aparecem na grande mídia. c) as redes sociais causam o risco de perda de privacidade: 1) informações postadas nas redes podem chegar ao conhecimento de qualquer um, incluindo companheiros e empregadores; 2) assim como no livro 1984, de George Orwell, somos vigiados o tempo todo e não temos mais direito a uma vida privada; 3) crackers podem invadir os computadores e roubar informações importantes, como senhas de bancos. d) é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado: 1) quem publica nas redes é o próprio usuário, portanto a responsabilidade é dele. Passo 3: Selecionar Argumentos e Informações Se você fez uma boa leitura da coletânea, é possível que tenha um número de argumentos e informações maior que o necessário. Portanto, será preciso fazer uma seleção. Esse é um dos momentos em que a presença do projeto de texto oferece uma enorme vantagem, pois permite que o autor escolha, conscientemente, as melhores ideias, ao invés de ficar preso às primeiras que lhe ocorrerem. Um primeiro critério para escolher quais são os argumentos que devem constar na versão final da redação é o da irrefutabilidade: quanto mais irrefutável (ou seja, difícil de contra-argumentar) um argumento for, mais ele cumprirá sua função de defender a tese. Uma forma de escolher os argumentos, portanto, é tentar derrubá-los com contra-argumentos e verificar quais são os que sobrevivem ao processo. Iremos, como exemplo, tentar contra-argumentar um dos argumentos levantados no passo anterior: Argumento: As redes sociais são parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. Contra-argumento: o número de pessoas com acesso à internet no Brasil é pequeno. A maioria dos brasileiros não usa redes sociais. Se todos os argumentos em que você pensou puderem ser rebatidos, não se desanime. Dificilmente haverá um argumento completamente irrefutável. O que você pode fazer para melhorá-los é reescrever seus argumentos levando em conta a possível contra-argumentação que ele devem enfrentar. Por exemplo, vamos reformular o primeiro argumento para que ele fique mais forte e resista ao seu contra-argumento mais comum: Argumento a1) reformulado: as redes sociais são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI; prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que nem todos usam a internet, mas a tendência é que o acesso à rede seja cada vez mais universal e necessário, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Ainda é possível discordar desse argumento, mas ele já está mais bem elaborado que a sua primeira encarnação. Normalmente, argumentos mais irrefutáveis terão de ser bem explicados e por isso vão gastar mais espaço. Por esse motivo, é importante selecionar alguns para receber esse tratamento, e não tentar encaixar todos os argumentos imaginados no espaço do texto sacrificando para isso sua qualidade. No exemplo acima, será eliminado, entre outros, o argumento que fala sobre os crackers. Vamos fazer isso para não ter que explicar o que é um cracker e porque a proposta que estamos usando na tese está mais voltada à perda de privacidade causada pelo próprio usuário, não àquela causada por invasores. Os outros argumentos sairão principalmente por falta de espaço. Passo 4: Ordenar Ordenar uma dissertação é dividi-la em introdução, desenvolvimento e conclusão. O projeto de texto deve ter, até esse momento, uma tese, alguns argumentos e informações. Então, não será difícil distribuir esses elementos para formar uma dissertação coerente. Veremos com mais detalhes como elaborar cada uma das partes da dissertação em uma postagem futura, mas aqui vai um resumo. Em primeiro lugar, a introdução deve apresentar o tema ao leitor. Deve ficar claro para o leitor qual será o assunto discutido na redação. Importante: Embora muitos defendam que a tese deve ser exposta na introdução, isso não é necessário (e pode até mesmo prejudicar o texto, como veremos no futuro). Lembre-se de um dos primeiros posts deste blog (http://temqueportitulo.blogspot.com/2011/11/de-onde-vem-as-lendas-de-redacao-parte_1170.html), em que eu mencionei o fato de que muitos professores criam regras baseados apenas em seus próprios preconceitos e opiniões, e passam essas leis aos alunos como se elas fizessem sentido. Uma dessas regras é justamente a de que toda introdução deve conter a tese. A verdade é que a introdução do texto dissertativo-argumentativo deve conter o tema; a tese pode aparecer nesse momento ou não. Recomendo fortemente o uso da tese na conclusão, mas, como essa é uma questão um pouco mais complexa, vou deixá-la para depois. Vamos usar aqui no nosso projeto uma introdução indutiva, que parte de um fato específico e o usa como exemplo para chegar ao tema mais geral. No caso, o filme “A Rede Social”, citado anteriormente: “O sucesso do filme “A Rede Social”, que conta a conturbada história por trás da criação da rede Facebook, chamou a atenção de muitos para um fenômeno da comunicação moderna: as redes sociais virtuais, em que milhares de pessoas compartilham suas informações, trocam ideias e até mesmo se engajam em movimentos políticos.” Entre outras possibilidades se encontram a introdução dedutiva, interrogativa ou histórica, de que eu também vou falar em outro momento (eu sei que estou prometendo muita coisa pro futuro, mas não dá para condensar um curso de redação inteiro em um post!). Dito isso, vamos ao desenvolvimento. O desenvolvimento é a parte em que aparecem os argumentos e as informações; uma boa ordem para apresentá-los é começar pelos menos discutíveis e seguir até os mais discutíveis. Assim, será mais fácil obter a concordância do leitor, pois ele irá encontrar primeiro argumentos que não o levarão a questionar o texto. Além disso, pode-se fazer com que os primeiros argumentos sirvam de base para os últimos, deixando-os mais fortes. Vejamos como vão ficar nossos argumentos, ordenados e reescritos para melhorar a coesão textual (a ligação entre os elementos do texto): “Essas redes são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que tais números se referem apenas a uma parcela da população, já que nem todos os brasileiros usam a internet. No entanto, a tendência é que o acesso à rede mundial de computadores seja cada vez mais universal e importante, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Nem todos enxergam essa expansão de forma positiva: muitos afirmam que, dada a onipresença da internet e das câmeras na sociedade, perdemos os limites entre o público e o privado. Como no livro “1984”, de George Orwell, viveríamos em um mundo controlado por um Grande Irmão, sem direito a vida particular, e a única solução seria nos recolhermos e abandonar a vida em rede. No entanto, essa visão ignora as possíveis vantagens das redes sociais, como a comunicação com pessoas distantes e a possibilidade de mobilização social, que podem até mesmo servir como um antídoto para a alienação imposta pela grande mídia.” Por fim, a conclusão deve apresentar ou retomar a tese (no caso de ela já ter sido apresentada). É possível, na conclusão, retomar também um ou dois argumentos mais importantes, mas é preciso tomar cuidado para não tornar o texto repetitivo. Para isso, basta explicar o argumento quando ele aparece pela primeira vez, no desenvolvimento, e depois, na conclusão, apenas mencioná-lo, sem explicar novamente. Como no nosso exemplo o tema exige uma proposta de intervenção, esta também deve estar presente: “As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público” O título não é sempre obrigatório, mas vamos criar um aqui para exemplificar. O motivo para criar o título na última etapa do projeto é justamente a possibilidade de ler o texto inteiro e depois elaborar um título que seja coerente com ele. Como nosso texto fala sobre vantagens e desvantagens da vida em rede, é possível usar esses conceitos no título: As vantagens e os riscos das redes sociais Outra possibilidade é a elaboração de uma metáfora, talvez ligada a alguma obra literária ou cinematográfica, que faça referência às ideias da tese: Redes sociais: a vida sob o olhar do Grande Irmão No exemplo acima, foi usado o Grande Irmão, em referência ao livro 1984, de George Orwell, citado também no terceiro parágrafo do desenvolvimento. Para aumentar a ligação entre título e tese, vamos também reformular a conclusão, acrescentando outra referência ao livro: “As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público. Dessa forma, será possível aproveitar a comunicação moderna em rede sem temer o olhar impiedoso do Grande Irmão.” Veja como ficou a versão final do texto: Redes sociais: a vida sob o olhar do Grande Irmão O filme “A Rede Social”, que conta a história por trás da criação da rede Facebook, chamou a atenção de muitos para um fenômeno da comunicação moderna: as redes sociais virtuais, em que milhares de pessoas compartilham informações, trocam ideias e até mesmo se engajam em movimentos políticos. Essas redes são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que tais números se referem apenas a uma parcela da população, já que nem todos os brasileiros usam a internet. Porém, a tendência é que o acesso à rede mundial de computadores seja cada vez mais universal e importante, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Nem todos enxergam essa expansão de forma positiva: muitos afirmam que, dada a onipresença da internet e das câmeras na sociedade, perdemos os limites entre o público e o privado. Como no livro “1984”, de George Orwell, viveríamos em um mundo controlado por um Grande Irmão, sem direito a vida particular, e a única solução seria nos recolhermos e abandonar a vida em rede. No entanto, essa visão ignora as possíveis vantagens das redes sociais, como a comunicação com pessoas distantes e a possibilidade de mobilização social, que podem até mesmo servir como um antídoto para a alienação imposta pela grande mídia. As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público. Dessa forma, será possível aproveitar a comunicação moderna em rede sem temer o olhar impiedoso do Grande Irmão. O propósito deste exercício não foi elaborar o texto perfeito, mas sim escrever uma redação simples que servisse para exemplificar os passos de um projeto de texto. Se ficaram dúvidas, não deixe de postá-las nos comentários. Mas, acima de tudo, comece o mais rápido possível a escrever redações usando o projeto de texto (mesmo que não exatamente como descrito aqui). Uma redação boa, escrita sem projeto de texto, pode ser obra do acaso; uma redação ruim escrita com projeto de texto é um primeiro passo na direção correta
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Projeto de Texto Dissertativo Parte 2: Quatro Passos Neste post (um pouco longo, é verdade), vamos ver os quatro passos necessários para elaborar o projeto de texto dissertativo. É importante lembrar que o método explicado aqui não é o único existente, mas é uma possibilidade que funciona bem e não é tão difícil de entender. Se você preferir, pode modificar o método e deixá-lo mais adequado ao seu estilo de escrita. Mas não deixe de fazer um projeto de texto, porque ele aumenta muito a qualidade final da redação. Uma sugestão: se não tiver tempo ou ânimo neste momento, não precisa ler o post inteiro. Leia um passo de cada vez, de preferência tentando fazer um projeto de texto ao mesmo tempo. Dessa forma, você saberá muito mais claramente se entendeu o processo. Projeto de texto não é o mesmo que rascunho: enquanto o rascunho tem um formato igual ao da redação final (ou seja, pode ser entregue a um corretor), o projeto só precisa ser compreendido pelo próprio autor. Pode ser escrito em tópicos, com abreviações e outros elementos que serão eliminados da versão final. E, o mais importante, sua ordem costuma ser inversa em relação ao texto definitivo. Passo 1: Elaborar a tese Se a tese é o que definirá todo o texto (pois os argumentos serão elaborados para prová-la), ela deve ser o primeiro elemento a ser definido. Digamos que sua tarefa seja a seguinte: Com base na leitura dos textos motivadores seguintes e nos conhecimentos construídos ao longo de sua formação, redija texto dissertativo-argumentativo em norma padrão da língua portuguesa sobre o tema VIVER EM REDE NO SÉCULO XXI: OS LIMITES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO, apresentando proposta de conscientização social que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para defesa de seu ponto de vista. É importante ler com atenção a proposta toda, não apenas o trecho em negrito. No caso do tema do ENEM, por exemplo, é necessário não apenas opinar sobre a vida em rede no século XXI, mas também apresentar “proposta de conscientização social que respeite os direitos humanos”. A tese que vamos elaborar será propositiva, portanto (em outro post, vou falar com mais calma sobre os vários tipos de tese). Vamos também tentar usar as palavras-chave do tema na tese (rede, século XXI, público e privado), porque isso aumenta a probabilidade de que a redação esteja adequada ao tema. Logo após a leitura da coletânea, que pode ser encontrada no link a seguir (http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/provas/2011/05_AMARELO_GAB.pdf), vamos definir uma opinião sobre esse assunto e escrevê-la em um espaço à parte da folha de redação. É importante notar que uma tese não é obrigatoriamente uma opinião “a favor de algo” ou “contra algo”; por exemplo, se o tema é “pena de morte no Brasil”, parece óbvio para a maioria das pessoas que a tese será a pena de morte deve ser adotada ou a pena de morte não deve existir. Porém, alguém poderia defender a tese de que adotar ou não a pena de morte não fará diferença. Essa tese pode funcionar tanto quanto as outras, desde que o autor ofereça argumentos para defendê-la durante o texto. Vamos começar a elaborar a tese com uma ideia simples, pertencente ao senso comum e claramente exposta na coletânea: As redes sociais são parte integrante da vida no século XXI Se ficarmos com essa tese, agora a tarefa será provar que ela é verdadeira. Não é tão difícil, porque a própria coletânea oferece argumentos que justificam essa opinião (como o fato de 72% das pessoas pretenderem criar um perfil na rede, ou a afirmação de que não fazer parte de uma rede social hoje é como não ter telefone). Mas vamos tornar a tese um pouco mais complexa e, ao mesmo tempo, acrescentar a ela uma proposta de conscientização social. O modelo é o seguinte: Como as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI, é necessário... Agora vamos pensar no que deve ser feito (se for para o ENEM, respeitando os direitos humanos, o que quer que isso signifique; minha sugestão é simplesmente evitar propostas muito polêmicas). A coletânea fala que a ONU reconheceu o direito de acesso à rede como algo fundamental para o ser humano. Pode ser uma proposta (os governos deveriam garantir o acesso das populações à rede). Outra pode ser encontrada no final do segundo excerto da coletânea: as pessoas devem tomar cuidado com o que publicam na internet, para não prejudicar suas reputações. Nada impede que as duas estejam presentes na tese, mas vamos escolher uma só, para deixar o exemplo mais simples e fácil de seguir. Ao se elaborar uma proposta de intervenção, faz sentido pensar no seguinte: se a proposta for seguida, qual será a vantagem? Se não for seguida, qual será o prejuízo? Então, é possível mencionar a vantagem, o prejuízo ou ambos, como parte da tese ou como argumentos. No caso das redes sociais, vamos mencionar o possível prejuízo (a perda de privacidade) e a vantagem, que será a facilidade de comunicação. Como as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI, é necessário que as pessoas tenham cuidado ao usá-las, para poder aproveitar a comunicação mais ágil trazida por elas sem que haja perda de privacidade. Agora, vamos incluir as palavras-chave que ficaram faltando (público e privado) e, se necessário, reescrever a tese para deixar as orações mais legíveis: As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Note que a tese acima não é a única possível e alguém poderia argumentar que nem é a melhor; mas ela serve bem à função que tem neste texto: exemplificar o processo de elaboração de uma dissertação. Passo 2: Levantar Argumentos e Informações Como deve ter ficado claro no passo anterior, uma tese pode ser composta de mais de uma afirmação (e, vale lembrar, nem sempre essa afirmação é “a favor de” ou “contra” algo). Cada uma dessas afirmações deve ser provada durante o texto, com argumentos e informações. Na maioria dos grandes vestibulares, provas e concursos (como Unicamp, USP, Unesp e ENEM), há uma coletânea de textos que contém diversas ideias e pode servir como auxílio nessa etapa. Vimos no post anterior que os argumentos são justificativas para a tese, ou seja, ideias que ajudam a provar a veracidade da opinião do autor. No exemplo que estamos usando, temos que provar as seguintes afirmações: a) as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI; b) as redes sociais trazem vantagens, como a facilidade de comunicação; c) as redes sociais trazem riscos de perda de privacidade; d) é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado Portanto, vamos procurar argumentos e informações, na coletânea ou na vida real, que sustentem as afirmações feitas. Digamos que, após reler a coletânea e pensar um pouco, chegamos aos seguintes: a) as redes sociais são parte integrante da vida no século XXI: 1) prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais; 2) 72% dos internautas pretendem ter um perfil em redes sociais; 3) o filme “A Rede Social” mostra a importância do Facebook no mundo de hoje. b) as redes sociais trazem vantagens, como a facilidade de comunicação: 1) é possível se comunicar com pessoas distantes; 2) é possível organizar mobilizações políticas; 3) as pessoas podem ficar menos alienadas, pois têm acesso a ideias que não aparecem na grande mídia. c) as redes sociais causam o risco de perda de privacidade: 1) informações postadas nas redes podem chegar ao conhecimento de qualquer um, incluindo companheiros e empregadores; 2) assim como no livro 1984, de George Orwell, somos vigiados o tempo todo e não temos mais direito a uma vida privada; 3) crackers podem invadir os computadores e roubar informações importantes, como senhas de bancos. d) é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado: 1) quem publica nas redes é o próprio usuário, portanto a responsabilidade é dele. Passo 3: Selecionar Argumentos e Informações Se você fez uma boa leitura da coletânea, é possível que tenha um número de argumentos e informações maior que o necessário. Portanto, será preciso fazer uma seleção. Esse é um dos momentos em que a presença do projeto de texto oferece uma enorme vantagem, pois permite que o autor escolha, conscientemente, as melhores ideias, ao invés de ficar preso às primeiras que lhe ocorrerem. Um primeiro critério para escolher quais são os argumentos que devem constar na versão final da redação é o da irrefutabilidade: quanto mais irrefutável (ou seja, difícil de contra-argumentar) um argumento for, mais ele cumprirá sua função de defender a tese. Uma forma de escolher os argumentos, portanto, é tentar derrubá-los com contra-argumentos e verificar quais são os que sobrevivem ao processo. Iremos, como exemplo, tentar contra-argumentar um dos argumentos levantados no passo anterior: Argumento: As redes sociais são parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. Contra-argumento: o número de pessoas com acesso à internet no Brasil é pequeno. A maioria dos brasileiros não usa redes sociais. Se todos os argumentos em que você pensou puderem ser rebatidos, não se desanime. Dificilmente haverá um argumento completamente irrefutável. O que você pode fazer para melhorá-los é reescrever seus argumentos levando em conta a possível contra-argumentação que ele devem enfrentar. Por exemplo, vamos reformular o primeiro argumento para que ele fique mais forte e resista ao seu contra-argumento mais comum: Argumento a1) reformulado: as redes sociais são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI; prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que nem todos usam a internet, mas a tendência é que o acesso à rede seja cada vez mais universal e necessário, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Ainda é possível discordar desse argumento, mas ele já está mais bem elaborado que a sua primeira encarnação. Normalmente, argumentos mais irrefutáveis terão de ser bem explicados e por isso vão gastar mais espaço. Por esse motivo, é importante selecionar alguns para receber esse tratamento, e não tentar encaixar todos os argumentos imaginados no espaço do texto sacrificando para isso sua qualidade. No exemplo acima, será eliminado, entre outros, o argumento que fala sobre os crackers. Vamos fazer isso para não ter que explicar o que é um cracker e porque a proposta que estamos usando na tese está mais voltada à perda de privacidade causada pelo próprio usuário, não àquela causada por invasores. Os outros argumentos sairão principalmente por falta de espaço. Passo 4: Ordenar Ordenar uma dissertação é dividi-la em introdução, desenvolvimento e conclusão. O projeto de texto deve ter, até esse momento, uma tese, alguns argumentos e informações. Então, não será difícil distribuir esses elementos para formar uma dissertação coerente. Veremos com mais detalhes como elaborar cada uma das partes da dissertação em uma postagem futura, mas aqui vai um resumo. Em primeiro lugar, a introdução deve apresentar o tema ao leitor. Deve ficar claro para o leitor qual será o assunto discutido na redação. Importante: Embora muitos defendam que a tese deve ser exposta na introdução, isso não é necessário (e pode até mesmo prejudicar o texto, como veremos no futuro). Lembre-se de um dos primeiros posts deste blog (http://temqueportitulo.blogspot.com/2011/11/de-onde-vem-as-lendas-de-redacao-parte_1170.html), em que eu mencionei o fato de que muitos professores criam regras baseados apenas em seus próprios preconceitos e opiniões, e passam essas leis aos alunos como se elas fizessem sentido. Uma dessas regras é justamente a de que toda introdução deve conter a tese. A verdade é que a introdução do texto dissertativo-argumentativo deve conter o tema; a tese pode aparecer nesse momento ou não. Recomendo fortemente o uso da tese na conclusão, mas, como essa é uma questão um pouco mais complexa, vou deixá-la para depois. Vamos usar aqui no nosso projeto uma introdução indutiva, que parte de um fato específico e o usa como exemplo para chegar ao tema mais geral. No caso, o filme “A Rede Social”, citado anteriormente: “O sucesso do filme “A Rede Social”, que conta a conturbada história por trás da criação da rede Facebook, chamou a atenção de muitos para um fenômeno da comunicação moderna: as redes sociais virtuais, em que milhares de pessoas compartilham suas informações, trocam ideias e até mesmo se engajam em movimentos políticos.” Entre outras possibilidades se encontram a introdução dedutiva, interrogativa ou histórica, de que eu também vou falar em outro momento (eu sei que estou prometendo muita coisa pro futuro, mas não dá para condensar um curso de redação inteiro em um post!). Dito isso, vamos ao desenvolvimento. O desenvolvimento é a parte em que aparecem os argumentos e as informações; uma boa ordem para apresentá-los é começar pelos menos discutíveis e seguir até os mais discutíveis. Assim, será mais fácil obter a concordância do leitor, pois ele irá encontrar primeiro argumentos que não o levarão a questionar o texto. Além disso, pode-se fazer com que os primeiros argumentos sirvam de base para os últimos, deixando-os mais fortes. Vejamos como vão ficar nossos argumentos, ordenados e reescritos para melhorar a coesão textual (a ligação entre os elementos do texto): “Essas redes são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que tais números se referem apenas a uma parcela da população, já que nem todos os brasileiros usam a internet. No entanto, a tendência é que o acesso à rede mundial de computadores seja cada vez mais universal e importante, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Nem todos enxergam essa expansão de forma positiva: muitos afirmam que, dada a onipresença da internet e das câmeras na sociedade, perdemos os limites entre o público e o privado. Como no livro “1984”, de George Orwell, viveríamos em um mundo controlado por um Grande Irmão, sem direito a vida particular, e a única solução seria nos recolhermos e abandonar a vida em rede. No entanto, essa visão ignora as possíveis vantagens das redes sociais, como a comunicação com pessoas distantes e a possibilidade de mobilização social, que podem até mesmo servir como um antídoto para a alienação imposta pela grande mídia.” Por fim, a conclusão deve apresentar ou retomar a tese (no caso de ela já ter sido apresentada). É possível, na conclusão, retomar também um ou dois argumentos mais importantes, mas é preciso tomar cuidado para não tornar o texto repetitivo. Para isso, basta explicar o argumento quando ele aparece pela primeira vez, no desenvolvimento, e depois, na conclusão, apenas mencioná-lo, sem explicar novamente. Como no nosso exemplo o tema exige uma proposta de intervenção, esta também deve estar presente: “As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público” O título não é sempre obrigatório, mas vamos criar um aqui para exemplificar. O motivo para criar o título na última etapa do projeto é justamente a possibilidade de ler o texto inteiro e depois elaborar um título que seja coerente com ele. Como nosso texto fala sobre vantagens e desvantagens da vida em rede, é possível usar esses conceitos no título: As vantagens e os riscos das redes sociais Outra possibilidade é a elaboração de uma metáfora, talvez ligada a alguma obra literária ou cinematográfica, que faça referência às ideias da tese: Redes sociais: a vida sob o olhar do Grande Irmão No exemplo acima, foi usado o Grande Irmão, em referência ao livro 1984, de George Orwell, citado também no terceiro parágrafo do desenvolvimento. Para aumentar a ligação entre título e tese, vamos também reformular a conclusão, acrescentando outra referência ao livro: “As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público. Dessa forma, será possível aproveitar a comunicação moderna em rede sem temer o olhar impiedoso do Grande Irmão.” Veja como ficou a versão final do texto: Redes sociais: a vida sob o olhar do Grande Irmão O filme “A Rede Social”, que conta a história por trás da criação da rede Facebook, chamou a atenção de muitos para um fenômeno da comunicação moderna: as redes sociais virtuais, em que milhares de pessoas compartilham informações, trocam ideias e até mesmo se engajam em movimentos políticos. Essas redes são, cada vez mais, parte integrante da vida no século XXI: prova disso é que as pessoas no Brasil passam cerca de 20% do seu tempo online em redes sociais. É verdade que tais números se referem apenas a uma parcela da população, já que nem todos os brasileiros usam a internet. Porém, a tendência é que o acesso à rede mundial de computadores seja cada vez mais universal e importante, tanto que a ONU já o classifica como direito fundamental do ser humano. Nem todos enxergam essa expansão de forma positiva: muitos afirmam que, dada a onipresença da internet e das câmeras na sociedade, perdemos os limites entre o público e o privado. Como no livro “1984”, de George Orwell, viveríamos em um mundo controlado por um Grande Irmão, sem direito a vida particular, e a única solução seria nos recolhermos e abandonar a vida em rede. No entanto, essa visão ignora as possíveis vantagens das redes sociais, como a comunicação com pessoas distantes e a possibilidade de mobilização social, que podem até mesmo servir como um antídoto para a alienação imposta pela grande mídia. As redes sociais, parte integrante da vida no século XXI, trazem vantagens, como a facilidade de comunicação, mas também trazem riscos de perda de privacidade. Por isso, é necessário que as pessoas, ao usar essas redes, tenham clara consciência dos limites entre público e privado. Os usuários precisam ser cuidadosos com o que publicam e devem evitar, por exemplo, postar ideias que não falariam em público. Dessa forma, será possível aproveitar a comunicação moderna em rede sem temer o olhar impiedoso do Grande Irmão. O propósito deste exercício não foi elaborar o texto perfeito, mas sim escrever uma redação simples que servisse para exemplificar os passos de um projeto de texto. Se ficaram dúvidas, não deixe de postá-las nos comentários. Mas, acima de tudo, comece o mais rápido possível a escrever redações usando o projeto de texto (mesmo que não exatamente como descrito aqui). Uma redação boa, escrita sem projeto de texto, pode ser obra do acaso; uma redação ruim escrita com projeto de texto é um primeiro passo na direção correta
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
O preconceito nosso de cada dia
Preconceito, nunca! Temos apenas opiniões bem definidas sobre as coisas. Preconceito é o outro quem tem…
Mas, por falar nisso, já observou o leitor como temos o fácil hábito de generalizar (e prova disso é a generalização acima) sobre tudo e todos? Falamos sobre “as mulheres”, a partir de experiências pontuais; conhecemos “os políticos”, após acompanhar a carreira de dois ou três; sabemos tudo sobre os “militares” porque o síndico do nosso prédio é um sargento aposentado; discorremos sobre homossexuais (bando de sem-vergonhas), muçulmanos (gentinha atrasada), sogras (feliz foi Adão, que não tinha sogra nem caminhão), advogados (todos ladrões), professores (pobres coitados), palmeirenses (palmeirense é aquele que não tem classe para ser são-paulino nem coragem para ser corintiano), motoristas de caminhão (grossos), peões de obra (ignorantes), sócios do Paulistano (metidos a besta), dançarinos (veados), enfim, sobre tudo. Mas discorremos de maneira especial sobre raças e nacionalidades e, por extensão, sobre atributos inerentes a pessoas nascidas em determinados países.
Afinal, todos sabemos (sabemos?) que os franceses não tomam banho; os mexicanos são preguiçosos; os suíços, pontuais; os italianos, ruidosos; os judeus, argentários; os árabes, desonestos; os japoneses, trabalhadores, e por aí afora. Sabemos também que cariocas são folgados; baianos, festeiros; nordestinos, miseráveis; mineiros, diplomatas, etc. Sabemos ainda que o negro não tem o mesmo potencial que o branco, a não ser em algumas atividades bem-definidas como o esporte, a música, a dança e algumas outras que exigem mais do corpo e menos da inteligência. Quando nos deparamos com uma exceção admitimos que alguém possa ser limpo, apesar de francês; trabalhador, apesar de mexicano; discreto, apesar de italiano; honesto, apesar de árabe; desprendido do dinheiro, apesar de judeu; preguiçoso, apesar de japonês e também por aí afora. Mas admitimos com relutância e em caráter totalmente excepcional.
O mecanismo funciona mais ou menos assim: estabelecemos uma expectativa de comportamento coletivo (nacional, regional, racial), mesmo sem conhecermos, pessoalmente, muitos ou mesmo nenhum membro do grupo sobre o qual pontificamos. Sabemos (sabemos?) que os mexicanos são preguiçosos porque eles aparecem sempre dormindo embaixo dos seus enormes chapelões enquanto os diligentes americanos cuidam do gado e matam bandidos nos faroestes. Para comprovar que os italianos são ruidosos achamos o bastante freqüentar uma cantina no Bexiga. Falamos sobre a inferioridade do negro a partir da observação empírica de sua condição socioeconômica. E achamos que as praias do Rio de Janeiro cheias durante os dias da semana são prova do caráter folgado do cidadão carioca. Não nos detemos em analisar a questão um pouco mais a fundo. Não nos interessa estudar o papel que a escravidão teve na formação histórica de nossos negros. Pouco atentamos para a realidade social do povo mexicano e de como ele aparece estereotipado no cinema hollywoodiano. Nada disso. O importante é reproduzir, de forma acrítica e boçal, os preconceitos que nos são passados por piadinhas, por tradição familiar, pela religião, pela necessidade de compensar nossa real inferioridade individual por uma pretensa superioridade coletiva que assumimos ao carimbar “o outro” com a marca de qualquer inferioridade.
Temos pesos, medidas e até um vocabulário diferente para nos referirmos ao “nosso” e ao do “outro”, numa atitude que, mais do que autocondescendência, não passa de preconceito puro. Por exemplo, a nossa é religião, a do outro é seita; nós temos fervor religioso, eles são fanáticos; nós acreditamos em Deus (o nosso sempre em maiúscula), eles são fundamentalistas; nós temos hábitos, eles vícios; nós cometemos excessos compreensíveis, eles são um caso perdido; jogamos muito melhor, o adversário tem é sorte; e, finalmente, não temos preconceito, apenas opinião formada sobre as coisas.
Ou deveríamos ser como esses intelectuais que para afirmar qualquer coisa acham necessário estudar e observar atentamente? Observar, estudar e agir respeitando as diferenças é o que se espera de cidadãos que acreditam na democracia e, de fato lutam por um mundo mais justo. De nada adianta praticar nossa indignação moral diante da televisão, protestando contra limpezas raciais e discriminações pelo mundo afora, se não ficarmos atentos ao preconceito nosso de cada dia.
Jaime Pinsky – historiador, doutor e livre docente pela USP – gentilmente autorizou a reprodução deste texto, que foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo (20/05/1993) e no livro Brasileiro (a) é assim mesmo – Cidadania e Preconceito, 1993, da Editora Contexto (www.editoracontexto.com.br)
Gaiolas e asas
Rubem Alves
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo “atacados” porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: “Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas”.
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças… E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações… Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra – e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando… O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensangüentado… Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é “dígrafo”? E os usos da partícula “se”? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante”? Qual a utilidade da palavra “mesóclise”? Pobres professoras, também engaioladas… São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: “Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira”.
O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era “ferramenta” e “brinquedo” do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender “ferramentas”, aprender “brinquedos”.
“Ferramentas” são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. “Brinquedos” são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer… Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: “Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?” Se não for, é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos.
Há esperança…
O preconceito nosso de cada dia
Preconceito, nunca! Temos apenas opiniões bem definidas sobre as coisas. Preconceito é o outro quem tem…
Mas, por falar nisso, já observou o leitor como temos o fácil hábito de generalizar (e prova disso é a generalização acima) sobre tudo e todos? Falamos sobre “as mulheres”, a partir de experiências pontuais; conhecemos “os políticos”, após acompanhar a carreira de dois ou três; sabemos tudo sobre os “militares” porque o síndico do nosso prédio é um sargento aposentado; discorremos sobre homossexuais (bando de sem-vergonhas), muçulmanos (gentinha atrasada), sogras (feliz foi Adão, que não tinha sogra nem caminhão), advogados (todos ladrões), professores (pobres coitados), palmeirenses (palmeirense é aquele que não tem classe para ser são-paulino nem coragem para ser corintiano), motoristas de caminhão (grossos), peões de obra (ignorantes), sócios do Paulistano (metidos a besta), dançarinos (veados), enfim, sobre tudo. Mas discorremos de maneira especial sobre raças e nacionalidades e, por extensão, sobre atributos inerentes a pessoas nascidas em determinados países.
Afinal, todos sabemos (sabemos?) que os franceses não tomam banho; os mexicanos são preguiçosos; os suíços, pontuais; os italianos, ruidosos; os judeus, argentários; os árabes, desonestos; os japoneses, trabalhadores, e por aí afora. Sabemos também que cariocas são folgados; baianos, festeiros; nordestinos, miseráveis; mineiros, diplomatas, etc. Sabemos ainda que o negro não tem o mesmo potencial que o branco, a não ser em algumas atividades bem-definidas como o esporte, a música, a dança e algumas outras que exigem mais do corpo e menos da inteligência. Quando nos deparamos com uma exceção admitimos que alguém possa ser limpo, apesar de francês; trabalhador, apesar de mexicano; discreto, apesar de italiano; honesto, apesar de árabe; desprendido do dinheiro, apesar de judeu; preguiçoso, apesar de japonês e também por aí afora. Mas admitimos com relutância e em caráter totalmente excepcional.
O mecanismo funciona mais ou menos assim: estabelecemos uma expectativa de comportamento coletivo (nacional, regional, racial), mesmo sem conhecermos, pessoalmente, muitos ou mesmo nenhum membro do grupo sobre o qual pontificamos. Sabemos (sabemos?) que os mexicanos são preguiçosos porque eles aparecem sempre dormindo embaixo dos seus enormes chapelões enquanto os diligentes americanos cuidam do gado e matam bandidos nos faroestes. Para comprovar que os italianos são ruidosos achamos o bastante freqüentar uma cantina no Bexiga. Falamos sobre a inferioridade do negro a partir da observação empírica de sua condição socioeconômica. E achamos que as praias do Rio de Janeiro cheias durante os dias da semana são prova do caráter folgado do cidadão carioca. Não nos detemos em analisar a questão um pouco mais a fundo. Não nos interessa estudar o papel que a escravidão teve na formação histórica de nossos negros. Pouco atentamos para a realidade social do povo mexicano e de como ele aparece estereotipado no cinema hollywoodiano. Nada disso. O importante é reproduzir, de forma acrítica e boçal, os preconceitos que nos são passados por piadinhas, por tradição familiar, pela religião, pela necessidade de compensar nossa real inferioridade individual por uma pretensa superioridade coletiva que assumimos ao carimbar “o outro” com a marca de qualquer inferioridade.
Temos pesos, medidas e até um vocabulário diferente para nos referirmos ao “nosso” e ao do “outro”, numa atitude que, mais do que autocondescendência, não passa de preconceito puro. Por exemplo, a nossa é religião, a do outro é seita; nós temos fervor religioso, eles são fanáticos; nós acreditamos em Deus (o nosso sempre em maiúscula), eles são fundamentalistas; nós temos hábitos, eles vícios; nós cometemos excessos compreensíveis, eles são um caso perdido; jogamos muito melhor, o adversário tem é sorte; e, finalmente, não temos preconceito, apenas opinião formada sobre as coisas.
Ou deveríamos ser como esses intelectuais que para afirmar qualquer coisa acham necessário estudar e observar atentamente? Observar, estudar e agir respeitando as diferenças é o que se espera de cidadãos que acreditam na democracia e, de fato lutam por um mundo mais justo. De nada adianta praticar nossa indignação moral diante da televisão, protestando contra limpezas raciais e discriminações pelo mundo afora, se não ficarmos atentos ao preconceito nosso de cada dia.
Jaime Pinsky – historiador, doutor e livre docente pela USP – gentilmente autorizou a reprodução deste texto, que foi originalmente publicado em O Estado de S. Paulo (20/05/1993) e no livro Brasileiro (a) é assim mesmo – Cidadania e Preconceito, 1993, da Editora Contexto (www.editoracontexto.com.br)
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
A família reflete a sabedoria divina
Alailson Leal
Nós seres humanos somos muitas vezes cegos para o mundo. Não conseguimos ver o que está ao nosso lado, somos incapazes de perceber a presença de pessoas que nos amam – que quer o nosso bem, porém o sentimento não se manifesta – fica dentro de si. O silêncio toma conta de tudo. Estamos tão pertos, mas ao mesmo tempo tão longe como se fôssemos o sol e a lua. Estão executando suas tarefas, entretanto, não sabemos como tudo é feito. Todo dia estão realizando suas funções vitais para o planeta. Se um dia não aparecer o sol com seu brilho esplêndido, a lua com sua beleza inconfundível, a vida no planeta sofrerá, pois só com ausência desses elementos é que vamos entender a importância de cada um dentro do universo.
A família, infelizmente, muitas das vezes,também é assim. Estamos próximos fisicamente, no entanto, cria-se uma barreira que impede qualquer tipo de diálogo. Como se fosse uma dimensão paralela – isolada pelo egoísmo, orgulho e indiferença.O pai em seu pedestal de soberania – o dono da verdade – impõe suas regras como verdade absoluta. O filho, mero mortal, dentro de uma cadeia de submissão incontestável. E o amor, o afeto, a amizade e o respeito - onde estão? Infelizmente esses ingredientes não fazem parte da família.O que alimenta, na verdade, o pai, o filho e a mãe são sentimentos maléficos, como a raiva, a estupidez e a ignorância.
Onde tudo isso vai parar? Não para, continua – o filho procura alegria nas outras pessoas – ditas como “perfeitas”- O mundo repleto de prazer, de orgia e de devaneio – fuga da realidade. E o pai, pobre coitado, destituído de moral e respeito. Não teve preparação para ser pai de verdade, apenas gerou o fruto sem sabedoria, sem a presença do ensinamento de Deus. E a família, que é a base estrutural da sociedade, como fica? Indubitavelmente, sem a presença do diálogo, do entendimento e do amor a família será apenas a perpetuação do sofrimento.
Todavia, o arrependimento, a culpa e a mágoa ocorrem em alguns casos. Nunca é, pois, tarde para sentir que é possível rever o que foi feito durante todo tempo, assim como se arrepender de coração, pedir perdão – já que a culpa não é apenas do pai ou do filho – ambos são culpados. O que vale nesse momento é refletir, analisar e pensar que o amor está presente em tudo. Deixe seu coração falar por você e aproveite a vida – use os ingredientes da felicidade: o amor, o diálogo, a compreensão e o comprometimento com a família.
Dessa maneira, é possível perceber, assim como o sol e a lua que exercem papel fundamental no universo, com uma perfeição irrevogável; a família também tem um papel importantíssimo que é promover harmonia e paz dentro de todos os lares – a família reproduz, portanto, é a base para a sociedade – e ela que reflete a sabedoria divina.
Nós seres humanos somos muitas vezes cegos para o mundo. Não conseguimos ver o que está ao nosso lado, somos incapazes de perceber a presença de pessoas que nos amam – que quer o nosso bem, porém o sentimento não se manifesta – fica dentro de si. O silêncio toma conta de tudo. Estamos tão pertos, mas ao mesmo tempo tão longe como se fôssemos o sol e a lua. Estão executando suas tarefas, entretanto, não sabemos como tudo é feito. Todo dia estão realizando suas funções vitais para o planeta. Se um dia não aparecer o sol com seu brilho esplêndido, a lua com sua beleza inconfundível, a vida no planeta sofrerá, pois só com ausência desses elementos é que vamos entender a importância de cada um dentro do universo.
A família, infelizmente, muitas das vezes,também é assim. Estamos próximos fisicamente, no entanto, cria-se uma barreira que impede qualquer tipo de diálogo. Como se fosse uma dimensão paralela – isolada pelo egoísmo, orgulho e indiferença.O pai em seu pedestal de soberania – o dono da verdade – impõe suas regras como verdade absoluta. O filho, mero mortal, dentro de uma cadeia de submissão incontestável. E o amor, o afeto, a amizade e o respeito - onde estão? Infelizmente esses ingredientes não fazem parte da família.O que alimenta, na verdade, o pai, o filho e a mãe são sentimentos maléficos, como a raiva, a estupidez e a ignorância.
Onde tudo isso vai parar? Não para, continua – o filho procura alegria nas outras pessoas – ditas como “perfeitas”- O mundo repleto de prazer, de orgia e de devaneio – fuga da realidade. E o pai, pobre coitado, destituído de moral e respeito. Não teve preparação para ser pai de verdade, apenas gerou o fruto sem sabedoria, sem a presença do ensinamento de Deus. E a família, que é a base estrutural da sociedade, como fica? Indubitavelmente, sem a presença do diálogo, do entendimento e do amor a família será apenas a perpetuação do sofrimento.
Todavia, o arrependimento, a culpa e a mágoa ocorrem em alguns casos. Nunca é, pois, tarde para sentir que é possível rever o que foi feito durante todo tempo, assim como se arrepender de coração, pedir perdão – já que a culpa não é apenas do pai ou do filho – ambos são culpados. O que vale nesse momento é refletir, analisar e pensar que o amor está presente em tudo. Deixe seu coração falar por você e aproveite a vida – use os ingredientes da felicidade: o amor, o diálogo, a compreensão e o comprometimento com a família.
Dessa maneira, é possível perceber, assim como o sol e a lua que exercem papel fundamental no universo, com uma perfeição irrevogável; a família também tem um papel importantíssimo que é promover harmonia e paz dentro de todos os lares – a família reproduz, portanto, é a base para a sociedade – e ela que reflete a sabedoria divina.
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